Folhas de Luar

A porta

A porta abre-se...

Uma sombra gélida entra

   na casa

Turvas melodias acetinadas

  bocados de tempo

O frio arrasta-se por todos

  os sentidos

Verão arredondado por ventos

  sem destino

Sombras de telhados a pairar

  no vendaval

Choros do passado

Que sobem pelo montante da

  minha embriaguez

O verão projecta-se na friagem

  das manhãs

Esconde-se no sono letárgico

  das abelhas

Grava-se no caule erecto das

   empenas das casas

E eu pairo como um desespero

Os meus sentidos arrastam-se

Pelas moradas silenciosas dos rios

Tirito com a febre ansiosa

  das maresias

Lavo a alma com espaços brancos

Imensos espaços ácidos

Vida inóspita que se acolhe

   aos umbrais

Areia dispersa pelo vento

Corpo gravado na pele das

  horas tardias

É urgente que me prolongue

   na noite

É urgente que sinta na boca

O amargar dos seres marinhos

A insegurança, a penumbra, a desordem

Tudo se ergue dentro do meu inóspito

  desejo de fugir

Mas as argilas deitam-se comigo

Gravam-se em mim

Sangro argilas feitas de estrelas

  polares

 

Secretamente inclino-me em todos

  os sentidos

Flecha pontiaguda que voa em

  todas as direcções

Monção inacabada...

Foz de penedias que desaguam nas

   ilhas da ilusão

Garganta silenciosa de mar

Que se abre ao meu sulco de vida

Onde corro como se fosse o

  sal gema do tempo

Gravado no ouro das nossas

  bocas sôfregas!

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