
Dentro da temperatura tépida de
um tempo excessivo
Há festa no tactear dos deuses que se
espraiam no grande rio
Há um tempo que nasce nos espelhos.
Como uma silenciosa ave cujas penas
gotejam raios de sol
Acordei e enchi-me de mar
De plantas e de um obsessivo ressoar
de sílabas
Vi que no fresco das árvores vicejam
céus e insectos
Trovões de línguas azuis riscam o
Infinito
E a hera contorce o tempo
Como um novelo que se enrosca
em mim
Erguem-se sonhos e povos antigos
Continuamente rastejam espirais de
dias imensos
Dias mais velhos que a videira
Onde repousam fragores de
bosques
O tempo a saltar no infinito
Um ar silencioso que me tolhe os
passos
Gotas de água obscenas iluminam o
rosto da tristeza
Ergamo-nos e avancemos
Repara que no interior das memórias
Definham sonhos de bronze
Sonhos corcovados pelo calor da
noite
Onde os poemas também se erguem
Inteiros e livres como um mestre
sem fronteiras
Há sempre um início
Um nascimento
Um tempo propício ao amor
Há sempre um leito e um rosto
Um ecoar de mar nas espirais de
um búzio
Há sempre uma fera a rugir
Junto à ferrugem ácida da
tristeza
Raramente o susto acompanha os
desertos
Tal como o fragor das armas não
acompanha a paz.
Palavras infindáveis pernoitam nas
Ilhas
É lá que nasce a manhã dos poetas
É lá que as gotas de chuva ganham asas e
alimentam o dia
As mulheres que sofrem sob o seu
corpo despido
E gotejam amor em cada sílaba que
calam
Por vezes nasce um peso vazio e
exagerado
Uma casa que regressa
Um tudo passou
Caos superior onde a respiração
ferve
Pedras que se calam no fundo dos
tempos
Flores imperceptíveis que se
desprendem do fogo das
manhãs
E mansamente definham na
placidez
dos quartos sem luz
Uma e outra vez
Como a efígie de uma estátua
Onde a Razão insiste em morrer
Como se fosse um dia encantado....