Folhas de Luar

Respiração

Quando nós partimos afoitos 

Caminhando em direcção a um

   oceano sonâmbulo

Uma sombra elevou-se na

   nossa boca queimada

Pela claridade dos mistérios

A cidade permanecia apenas como

   um desenho feito com

O sarro dos corpos

De repente ergueu-se uma estátua

  de pedra

Estremeceu com o eco da dor

Eis aqui o sofrimento

Eis aqui outro tempo parado

   em mim

Como um lugar sem lume

 

E tu que respiras como um

  cristal eterno

Em que lugar te encontras agora?

Que brilho invade o teu olhar?

Que planaltos flutuam no lume onde a

   terra é feita de enxofres?

Sabes que aqui há a escuridão de

  um outro mar

Um mar inavistado pelos olhos de

   outro tempo

Deixa que a tua boca respire

  na minha

Deixa que o medo abandone as

  tuas ruínas

Mas permaneçam as portas com

  vista para o luar

Insalubres vistas de lodos salgados

Onde o medo singre através do

  Silêncio

 

 

Vês as sombras das nuvens a

    entardecer sobre a terra fértil

Mas desconheces o travo amargo da

  pele enlaçada na respiração do cais

Cais de onde partem as brumas e

  as rotas

Como barcos que caminham pelo

   rumo inalterado do tempo

 

De ti sai uma paixão

Uma chuva cansada

Uma quilha onde te encostas…

  uma ilha

Deixa que saiam de ti todos esses

   Lugares

Tatua na pele as enseadas

Singra dentro do sonho

Como a alma fulva das marés

 

Escreve a tua voz em todos os

  Portos

Em todos os rostos que te

  fitam...placidamente

Dá o teu sangue à paixão de

  um Deus desconhecido

Deixa-te ir como se fosses uma

  parte ínfima de um lugar

De onde não partiste

 

Há uma voz que clama no vaivém da

    Pele

Um linho que te veste o rosto

Uma alma sentada na sombra das

  palmeiras

Escreve…escreve como se fosse a

   última coisa que viste

Deixa que a memória de um

  sonho escorregadio

Se levante

Deixa que habite em ti a impoluta treva

 das horas a cair...

Baixinho...

Como o som do silêncio...

 

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